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  Entra em cena uma figura feminina de cabelos compridos, esticados, de olhos grandes e com ar deprimente. Essa figura usava uma camisola ou um casaco de mangas grandes para esconder as suas cicatrizes, umas leggings e uns ténis, quase toda de preto para demonstrar a sua solidão e ar negativo. O seu nome é Samantha e tem 16 anos. Sofre de depressão, o que a levou à automutilação.
Começa a reproduzir a música “Standing in the way of the lights” (Birdy). As luzes acendem e a personagem começa a andar de um lado para o outro, olha para cima e para baixo, como se estivesse à procura de algo material para falar. A música baixa aos 0:17 segundos e Samantha começa a falar.

Não sei mesmo o que fazer, vejo-me a piorar cada vez mais, estou a passar de “social” a “isolada”. Pois, sou mesmo uma criança estúpida, sem noção das coisas e da realidade … afinal, porque o faço? Porque me rebaixo com tudo o que me dizem e fazem, porque me sinto cada vez mais inferior? Porque é que opto sempre pelo caminho mais doloroso? Não é que eu me magoe, porque até já nem sinto dor, já não choro… (pausa) serei “anormal” aos olhos do mundo por ser assim?
         (senta-se no chão) Talvez seja isso tudo que me chamam … (com ar irónico) “criança, estúpida, parva, coitadinha, blabla”.Sim, talvez seja isso! Não!(levanta-se com indignação) Sou isso mesmo … feliz? Parece!
         Cada dia que passa me rebaixo cada vez mais, penso sempre que tenho mais um milímetro de espessura no meu corpo que tem de ser retirado, menos talento, menos coragem.
         Irónico, não? (sorri ironicamente)
         (pausa) Dá para ver a falsidade através do olhar de cada um, ver o sentimento de culpa no desenrolar de uma simples conversa, num movimento com a boca, no desviar do olhar… é simples, tão simples que parei de me importar com as pessoas, parei de fazer separação dos verdadeiros e dos falsos, é tudo tão óbvio que só fica quem faz falta, os restantes… vão-se embora sem dar razões. Acabo quase sempre sozinha, já nem a escuridão me quer. Mudei, estou mais fria, solitária, sem motivação de sequer respirar. Agora penso… porque razão construí eu futuros tão grandes em pessoas tão pequenas, que nem valem a pena? Sou tão ingénua que chego a chorar por pessoas que eram demasiado óbvias.
         Encontro-me numa guerra enorme, de veras violenta, entre três estados, o físico, o psicológico e o físico-psicológico, mas quem irá vencer esta guerra? Quem terá a força suficiente para destruir os outros estados? E se o físico perder? Irei eu morrer? Tenho aquela vontade enorme de desaparecer sem hora nem destino para voltar, aqueles pensamentos constantes de que o mundo estaria muito melhor sem mim… sou apenas mais um corpo sombrio a vaguear por esta terra, só isso! (põe as mãos à cabeça, levanta a cabeça e suspira)
        
A toda a hora finjo um sorriso (sorri com falsidade), passo a minha vida a dizer “Eu estou bem” mas mal viro as costas, rios de lágrimas escorrem-me pela cara, somos todos cúmplices das trevas, escravos da solidão! Enlouqueço por algo mínimo, um grito ou uma crítica, uma palavra negativa, tudo me deita abaixo. Não é normal insistir a toda a hora naquilo que me faz sofrer, exigir das pessoas algo que eu sei que nunca irei ter, depois encontro-me sentada na cama, luzes apagadas, música deprimente, a chorar e lamentar-me desses erros. Um dia esta dor irá fazer sentido para todos vocês! Acreditem em mim (ar de provocação e certeza).
         Tenho a cabeça contra o coração, opiniões e sentimentos numa revolta para comigo, sou obrigada a fazer escolhas! Estou farta! Não me procuram, significa que conseguem viver sem mim, não é!? Pois, já estou habituada, podem ir, mas por favor, não voltem! Quando alguém me deixa, faz falta, assim como uma simples peça faz falta num puzzle, mas sim, já não me importo! Mas quem quero eu enganar? Claro que me importo, estou sozinha, preciso de alguém que precise de mim também, mas não existe, nunca existiu, nem irá existir. (fala baixo e abana a cabeça) Desisto.
         Sempre ignorada, sentimentos ignorados, fecho os olhos quando choro e parece que tudo triplica a sua carga emocional, a saudade, a dor, a tristeza, tudo isso parece não ter fim. As coisas podem passar, mas marcam, esquecer dói imenso, não consigo conjugar ambas as coisas, esquecer e deixar passar, acabarei sempre por ter marca, as coisas não podem simplesmente… desaparecer e serem esquecidas.
          (levanta as mangas e mostra cicatrizes disfarçadamente) A pergunta que me faço constantemente é: “Isso não dói?”, mas a minha mente e o meu consciente responde: “Só dói se eu quiser”, mas acabo por pensar também: “Não fará diferença, o sorriso será sempre o mais radioso” (volta a baixar as mangas). Estou farta de mim, farta do mundo, já tenho medo das pessoas, não consigo olhar nos olhos de ninguém, não é possível considerar-me feliz desde o momento que deixo escorrer sangue pelo meu corpo.
         (ironicamente a olhar para o público mas a fingir que ele não existe) Não entendo porque estou aqui a falar, ninguém se importa, nem nunca ninguém se importou, será sempre igual! Não prometo que irei parar de me magoar, se morrer não vai ser doloroso, já estou morta por dentro. Agora o meu conselho para todos é … (levanta a cabeça, vira costas, começa a falar mas vira-se de novo para o público) ok, como se alguém me fosse ouvir… mas pronto, o conselho é: “Se não querem acabar de espírito morto e com ódio de vocês mesmos, não dêem ouvidos aos outros, eles podem-te dar mil e um sorrisos, mas nunca irão querer a tua felicidade”. Desisti de mim, não façam o mesmo com vocês.


As luzes apagam e Samantha sai do palco.

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