20:16

Quando o consciente se torna inconsciente de tudo o que faz, que nos leva a dizer coisas que nem estavam reservadas para serem ditas, quando damos um passo a mais que devia ter sido dado há momentos atrás, quando isso faz com que haja revolta. Guerra sangrenta, chuva de sangue negro, gotas espeças a caírem cada vez mais rápido e com mais força, o suor seca, os sentimentos negativos revelam-se, os olhos não brilham, ardem, chamas nascem como se não houvesse amanhã. Até pode não haver, quem sabe. O tempo é uma luta constante, luta contra o humano, tem cada vez mais força, um dia cairá.
            Os dedos começam a congelar, um por um, não há um único que escape, o destino foi traçado, não há como voltar atrás. Escolhas? Essas já deviam ter sido feitas, impossível reverter a vida, não tem como fazer outras ou novas escolhas. Os erros apoderam-se da mente, a culpa aumenta, cresce cada vez mais, é como pedaços de vidro a rasgar a pele com pressão e em câmara lenta, agulhas a espetar no coração… Sensações doentias, limites desconhecidos, vulnerabilidade instalada. Não há estabilidade. 
            Quem sou eu para falar? Pensamentos negativos a cada segundo, sou instável, não sei o que sinto, o que quero, o que penso, não sei como lidar comigo mesmo sabendo quem sou, talvez nem isso eu saiba. É difícil, sinto cada corrente do meu corpo, sinto o sangue a correr nas veias, sinto a minha mente a trabalhar, o coração a bater, mas não sei como me sentir em relação a isso. Viver não é para se fazer a cada dia? Porque só vivo quando arrisco? O meu coração só acelera quando passo os limites, quando me magoo ou magoo alguém, quando erro de tal forma que isso se nota no meu corpo.
            Admito, sinto saudades. Saudades de ter alguém que me compreenda, que lute por aquilo que mais odeia em mim, que me olhe nos olhos e descubra a minha beleza interior mesmo quando acho que a mesma não existe. Alguém que me puxe para a vida, que me incentive a viver e me faça olhar para o mundo com outros olhos, que me obrigue a ser feliz com simples gestos, que me realize. Podiam apagar estes pensamentos escuros da minha mente, podiam acabar com o pessimismo que há em mim, podiam abrir as portas da minha mente e cortar todo o mal, pela raiz, mas não… há sempre algo mais importante a fazer, há sempre alguém pior que eu e disso eu tenho a certeza, todos os dias vejo casos novos, pessoas cada vez pior, mas também sou um ser humano, também sinto, também vou abaixo, mas com pouco.
            A solidão é estranha, sinto-a a falar comigo, diz que não presto, que sou uma pessoa inútil, que ninguém me quer, ninguém precisa de mim, e no final de contas vem alguém dizer que precisa, como posso eu acreditar? Como posso acreditar em alguém que me conhece há uns tempos? Não há provas, não consigo acreditar nas ações, nas promessas. Promessas… que nostalgia, palavras tão inúteis, sem sentido, palavras de boca para fora guardadas no baú da memória com raiva e ressentimento. A cara dessa pessoa ficou gravada, nunca me irei esquecer de tanta promessa feita e quebrada. Se não conseguem cumprir, porque falam? Não tenho moral, eu sei, tanto que prometi e ainda não cumpri. “Vou fazer alguém feliz” pensava eu… que ingenuidade a minha, nunca irei ser capaz de fazer alguém feliz, nem nenhuma pessoa será capaz de me fazer a mim feliz. Somos todos uns monstros, uns animais com espírito demoníaco. Nada nem ninguém é capaz de se unir a outrem para fazer o bem.
            Enfim, para quê falar? Nada será resolvido, os ouvidos do coração de cada um estão tapados com o ódio, com o orgulho do dia a dia. O mundo é injusto, julga para não ser julgado, mas tornasse numa bola de neve, quem julga será julgado, não sei, isto tem de parar. Julgam pela saudade permanente, ninguém pode ser feliz porque é um erro seguir em frente, mas tenho de estar com o passado preso em mim? Tenho de carregar as mágoas do passado? Não posso ser feliz porque os outros não concordam com a minha decisão? Eu fiz uma escolha, mesmo não sendo a mais correta foi a minha escolha, o meu coração disse para seguir em frente e foi isso que fiz. 
            Sequei as gotas negras da chuva dos meus olhos, sequei a mágoa que impedia o meu coração de bater e soltei o sorriso que estava preso. As memórias más continuam presentes, claro que continuam, foram elas que me ensinaram a crescer, foram elas que me rasgaram os olhos e permitiram que eles abrissem. As promessas? Ainda estou à espera que sejam cumpridas. Pode ser um erro querer ser feliz? Pode, mas como sempre, tentarei aprender, o meu consciente voltará ao seu ciclo vicioso, mas nunca quebrarei a rotina de tentar. Senão tentar, ninguém o fará por mim.





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1 coments

  1. Tudo o que aqui disses-te, compreendo-te a 110%. É estranho porque nunca pensei que alguém pensasse assim. Queres um conselho? Mantém-te assim. Não me conheces, nem eu a ti, mas não preciso de ler mais nada para saber exactamente como és. Não te percas no meio de tantas buscas, de tantas falhas, tantas questões... Infelizmente tive uma experiência que me ensinou uma das maiores lições... que a felicidade, a vida, são meros momentos, que ocorrem ocasionalmente. E esses ficam marcados na nossa memória até um dia mais tarde na solidão habitual nos lembrar-mos com uma certa saudade. E por falar em solidão, essa que aparece mesmo quando estás rodeada de gente...? Sei o que é isso. Também tens tantos pensamentos que não sabes no que pensas? Querer dizer tanto, e conseguir dizer tão pouco...? Ter tantas perguntas a vaguear a mente, e nem sequer percebe-las? Estar de cara pasmada com a felicidade e mesmo assim não te sentires satisfeita? Estar bem só ao fazer o que não é totalmente correcto para o redor, mas sim para ti, deixando em ti uma culpa, simplesmente por tentares ser feliz?
    Sei o que é isso tudo, e muito bem, apenas sê fiel a ti mesma...

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